O medo da dor pode motivar o adiamento da colonoscopia, exame considerado fundamental para o diagnóstico precoce do câncer colorretal. Novas técnicas que trocam a insuflação de ar pelo uso de água durante o procedimento têm reduzido o desconforto, contribuindo para o aumento no número de exames realizados, conforme estudo publicado no periódico Portuguese Journal of Gastroenterology.

De acordo com a pesquisa, a substituição da insuflação de ar por água reduziu a pontuação média de dor de 4,94 para 3,39, em uma escala de zero a dez, e aumentou a taxa de exames totalmente indolores de 1,4% para 12,9%. O estudo ouviu 141 pacientes.

O avanço da técnica, somado a outros esforços no campo da medicina, é uma resposta a um cenário preocupante. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima, em média, 45 mil casos de câncer colorretal por ano. 

Embora a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) tenha registrado 574.578 exames em 2024, uma alta de 138% desde 2020, segundo o Datasus, o medo da dor ainda pode afastar pacientes e prejudicar o diagnóstico na fase inicial da doença, quando há mais chances de cura.

Nacionalmente, a maioria dos diagnósticos ainda acontece em fases avançadas da doença. Países com programas estruturados de rastreamento têm 65% de sobrevida, o Brasil registra apenas 48,3% (cólon) e 42,4% (reto) devido ao diagnóstico tardio.

A Fundação do Câncer projeta crescimento de 36,3% na mortalidade por câncer colorretal até 2040 no Brasil. Situações como abdômen agudo perfurativo ou diverticulite aguda, quando a colonoscopia é contraindicada, limitam o rastreamento em parte dos pacientes. 

Para enfrentar os índices crescentes da doença, o campo da medicina diagnóstica tem investido em redefinir a mecânica dos exames. Além de novas técnicas físicas de inserção que reduzem a dor, o setor incorpora a Inteligência Artificial (IA) para elevar a precisão diagnóstica e reestrutura o preparo clínico hospitalar.

Como funciona a técnica de infusão líquida para eliminar a dor na colonoscopia

Diferente da técnica tradicional da colonoscopia, que utiliza ar para expandir o cólon e causa dor por alongamento, o método water exchange (troca de água) infunde e aspira líquido simultaneamente. O processo lubrifica o trato intestinal e evita a formação de alças dolorosas, mantendo a visibilidade sem distender o órgão excessivamente.

Em artigo publicado na revista Gastroenterology & Hepatology, pesquisadores explicam que a insuflação de ar alonga o cólon, gerando voltas que são a fonte principal de dor. Já a água mantém o órgão menos distendido e mais limpo, facilitando também a visualização das imagens pelo médico.

Resultados de 2024 publicados no periódico Diagnostics reforçam a estratégia bem-sucedida: 96,5% de 250 pacientes completaram o exame com água sem qualquer sedação. Outro dado indica que 97% dos participantes aceitariam repetir o procedimento sob as mesmas condições.

Técnica dispensa sedação e elimina 24 horas de recuperação

Sem a vedação profunda, os pacientes podem retornar às atividades cotidianas na mesma tarde quando, atualmente, a recuperação da anestesia costuma levar de 17 a 24 horas. O novo cenário também diminuiria, e em alguns casos eliminaria, a necessidade de acompanhante para a alta hospitalar.

A segurança clínica também pode melhorar. O mesmo estudo divulgado na Diagnostics lista os riscos da sedação profunda: hipoxemia, desconforto respiratório, aspiração e eventos cardiovasculares. Ao realizar o exame com o paciente acordado, tais complicações são evitadas, sendo classificado pelos autores como um avanço necessário diante da escassez de recursos hospitalares pós-pandemia de Covid-19.

Comparativamente, apenas 36,6% dos pacientes em exames com ar acharam o processo “fácil”, enquanto 68,6% no grupo da água consideraram o mesmo.

Colonoscopia virtual e cápsula servem para casos específicos

A colonoscopia virtual por tomografia serve como opção para pacientes com alto risco para sedação, idosos com contraindicações ou casos em que a colonoscopia tradicional ficou incompleta. 

Profissionais coloproctologistas explicam que a técnica não permite biópsias nem remoção de pólipos; se uma lesão for encontrada, o paciente precisa fazer novo preparo para realizar a colonoscopia convencional. O exame também exige insuflação de ar com o paciente acordado e não identifica lesões planas.

Já a cápsula endoscópica é indicada para investigar o intestino delgado em casos de sangramentos obscuros ou doença de Crohn. Para avaliação do esôfago e estômago, a duração da ecoendoscopia alta situa-se entre 30 e 60 minutos, oferecendo imagens detalhadas de estruturas adjacentes como pâncreas e vias biliares.

A versão da cápsula para estudo do cólon ainda está em fase inicial. O preparo intestinal para os pacientes, no entanto, pode ser mais exaustivo que o da colonoscopia tradicional e não há possibilidade de intervenções terapêuticas. O exame ainda não está amplamente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo oferecido apenas por alguns planos de saúde ou na modalidade particular. 

IA corta pela metade a taxa de erro diagnóstico

No campo tecnológico, clínicas norte-americanas indicam que a IA reduziu a taxa de falha na detecção de pólipos de 32,4% para 15,5%. O sistema funciona como um suporte visual que identifica lesões pequenas ou planas, frequentemente ignoradas em exames convencionais, e sugere, em tempo real, a histologia mais provável do pólipo. 

Esse tipo de condução auxilia diretamente a estratégia terapêutica e, para endoscopistas, ao marcar áreas suspeitas na tela para validação médica, também compensa os eventuais cansaço ou distração do profissional.

Os profissionais já envolvidos no uso da IA alegam que, além disso, há um ganho psicológico: a tranquilidade de saber que o exame foi minucioso e que a chance de algo passar despercebido foi drasticamente reduzida. 

É possível, ainda, combinar a IA com a técnica de troca de água: esta última limpa ativamente o cólon durante a inserção, o que reduz falsos positivos causados por bolhas e resíduos que poderiam confundir o sistema de IA.

Preparo intra-hospitalar garante hidratação venosa e estabilidade clínica

Para evitar desidratação e hipotensão comuns no preparo doméstico para exames de colonoscopia, hospitais brasileiros já implementaram, ou estudam adotar, o preparo intra-hospitalar. Nesse caso, o paciente recebe laxantes sob supervisão e hidratação venosa em acomodações privativas, garantindo estabilidade clínica total antes do procedimento.O estudo do periódico Gastrointestinal Endoscopy mostra que protocolos de baixo volume funcionam melhor: a dose de 2 litros de polietilenoglicol com ácido ascórbico em esquema dividido (split-dose) apresentou melhores pontuações de limpeza intestinal e maior taxa de detecção de adenomas: 39% contra 20% comparado a outros protocolos.