A Eucatex consome 1,8 milhão de metros cúbicos de madeira por ano, replanta cerca de 7.500 hectares por ano e produz 13 milhões de mudas clonais por ciclo. Flávio Maluf, presidente executivo da companhia desde 1997, ergueu essa operação florestal como base para um modelo que conecta silvicultura, manufatura e reciclagem em uma cadeia fechada.

“Nascemos de uma base florestal. Plantamos eucalipto desde a década de 50 para a produção de chapas finas e painéis de eucalipto”, afirmou Flávio.

A empresa existe desde 1951. Na década de 1960, passou a transformar eucalipto em forros acústicos, um uso incomum à época, quando o setor recorria majoritariamente a madeiras nativas. Hoje, a companhia é uma das maiores fabricantes de painéis MDF e MDP, pisos laminados, portas, divisórias, tintas e vernizes do Brasil, incluindo tintas decorativas, com faturamento de R$ 2,86 bilhões em 2025. Aproximadamente 75% dessa receita vem diretamente da base florestal, segundo José Antônio Goulart de Carvalho, vice-presidente da empresa. Para referência, o Brasil ultrapassou pela primeira vez a marca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, dos quais 7,8 milhões são de eucalipto, com produtividade média nacional de 35,7 m³/ha/ano, quase o dobro da do Hemisfério Norte, segundo o Relatório Anual 2024 da Indústria Brasileira de Árvores.

O Ciclo Florestal Fechado

“Atualmente, investimos em melhoramento genético e na produção de mudas clonais. Nossas florestas têm um dos maiores IMAs (Incrementos Médios Anuais) do Brasil”, destacou Flávio Maluf.

O viveiro operacional em Bofete, no interior paulista, ocupa 10 hectares e funciona desde a década de 1970. Dele saem as mudas que abastecem as fazendas de eucalipto da empresa. Cada etapa da cadeia florestal passa pela Eucatex, desde a seleção genética das mudas até o carregamento dos caminhões que abastecem as fábricas. Entre 2023 e 2024, a Eucatex destinou R$ 555,7 milhões em investimentos à manutenção de suas atividades, dos quais 56,74% foram destinados às operações florestais.

A certificação FSC (Forest Stewardship Council), obtida em 1996 sob a gestão de Flávio Maluf, antecipou, em anos, a adesão do setor a padrões ambientais formalizados. Até julho de 2024, 9,53 milhões de hectares de florestas naturais e plantadas no Brasil estavam certificadas pela FSC. A Eucatex foi uma das primeiras a adotar o sistema. “Desde os anos 90, a Eucatex possui o selo FSC, o mais alto reconhecimento de sustentabilidade. Também possui a certificação ISO 14001, que atesta padrões internacionais de qualidade e gestão ambiental,” observou o executivo.

Essas credenciais abriram portas concretas. Em 2001, a Eucatex se tornou a primeira empresa a receber um certificado de produto sustentável da Home Depot. “Até hoje, somos um fornecedor relevante do segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.

Reciclagem Industrial e Biomassa

A central de reciclagem em Salto, no interior de São Paulo, coleta resíduos de madeira num raio de até 100 quilômetros. Paletes, bobinas, pontaletes, retalhos de móveis e resíduos de construção civil chegam de mais de 300 empresas parceiras.

São mais de 100 mil toneladas reaproveitadas por ano. A iniciativa preserva cerca de 1 milhão de árvores que deixam de ser cortadas e gera uma economia estimada de 15 milhões de litros de água por ano.

“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos questionamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?” Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?'” Explicou Flávio Maluf.

Inaugurada em 2004, a linha de reciclagem foi a primeira em escala industrial da América Latina. Todo o material coletado vira biomassa para as caldeiras da unidade de madeira em Salto, substituindo a queima de óleo diesel e de gás natural por uma fonte mais econômica e menos poluente. Onde as florestas plantadas fornecem matéria-prima primária, a reciclagem recupera o que seria descartado e reinsere na produção.

Energia Renovável e Resultados Financeiros

Flávio Maluf ampliou a lógica ambiental da Eucatex para além da madeira. A empresa investiu R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de geração de 269 MWp, em parceria com a Comerc Energia.

“Hoje, 50% do consumo de energia elétrica em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada com a nossa filosofia”, relatou Maluf.

Biomassa nas caldeiras, energia solar nas linhas de produção. A dependência de combustíveis fósseis diminuiu.

Em 2025, a Eucatex publicou seu primeiro Relatório de Sustentabilidade, cobrindo de janeiro de 2023 a dezembro de 2024, incluindo o primeiro inventário de Gases de Efeito Estufa da companhia. No aspecto financeiro, em 2025, o faturamento consolidado alcançou R$ 3,1 bilhões. Para 2026, a previsão é de R$ 500 milhões em investimentos, com mais da metade voltada à expansão do reflorestamento.

Flávio Maluf também instituiu, em 1999, o Programa de Educação Ambiental da Eucatex, voltado a estudantes de escolas públicas de Bofete e de Salto. “Além de disseminar informações sobre preservação ambiental, promovemos cursos de saúde e segurança, combate a incêndios e ações de primeiros socorros, formando moradores e profissionais”, explicou Flávio. Mais de 27 mil visitantes já participaram do programa. Outro projeto ligado às florestas, o Programa de Apicultura Polinizar, ativo desde 2004, proporcionou a produção de mais de 320 toneladas de mel nos últimos onze anos, beneficiando cerca de 30 famílias rurais.