O mercado brasileiro de virtualização de desktops deve crescer 16,54% ao ano até 2030, em taxa composta, segundo o estudo Brazil Desktop Virtualization Market Research Report, 2030, realizado pela consultoria Actual Market Research. Quem acompanha esse setor, percebe que há informações relevantes por trás desse número. Haroldo Jacobovicz, fundador e presidente do Conselho de Administração da Arlequim Technologies, acredita que existe uma oportunidade pouco percebida nessa projeção.
“A narrativa de crescimento foca em nova infraestrutura, novos contratos, novos dispositivos. Mas a demanda mais consistente que vejo no Brasil é outra: organizações precisando usar melhor o que já têm porque fazer a substituição por equipamentos novos fica inviável financeiramente,” diz Jacobovicz.
Os três vetores que estão puxando o mercado
A aceleração do mercado brasileiro de virtualização não tem uma causa única. Três pressões distintas estão chegando ao mesmo tempo.
A primeira é regulatória. A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados, Lei nº 13.709/2018) impõe obrigações de segurança de dados que se traduzem diretamente em demanda por ambientes centralizados. Quando os dados ficam no servidor e não no dispositivo de acesso na ponta, o “endpoint”, o alcance da proteção diminui — e o risco de vazamento por dispositivo perdido ou danificado aumenta. Auditoria do Tribunal de Contas da União – TCU – com 387 órgãos e entidades federais identificou que a conformidade com a LGPD ainda está abaixo do exigido, o que cria pressão institucional crescente sobre gestores de TI do setor público.
A segunda pressão é operacional. O trabalho remoto e híbrido, acelerado pela pandemia, não se reverteu completamente. Organizações que distribuíram acesso a sistemas críticos para funcionários em casa passaram a gerenciar um perímetro de segurança fragmentado, com dispositivos variados, conexões distintas e sem controle centralizado.
A terceira pressão, menos discutida, é orçamentária. Substituir parque de hardware corporativo no Brasil é caro, pelas mesmas razões tributárias que encarecem o hardware no varejo. Uma máquina que custa US$ 800 nos Estados Unidos pode sair mais de R$ 6.000 no mercado nacional. Prolongar a vida útil de “endpoints” existentes por meio de virtualização vai além de uma medida de contingência, pode ser a única estratégia financeiramente viável para algumas empresas.
VDI corporativo versus DaaS: a distinção que importa
O mercado de virtualização tem dois modelos com dinâmicas muito diferentes. O VDI tradicional exige infraestrutura própria — servidores locais, licenças, equipe de TI dedicada para manter o ambiente. Bancos, operadoras de telecomunicações e empresas de saúde de grande porte adotam esse modelo porque têm capacidade de investimento inicial e adotam um modelo inegociável de controle total sobre a infraestrutura.
Já o Desktop as a Service – DaaS – tem uma dinâmica diferenciada. A infraestrutura fica sob responsabilidade do provedor do serviço; a organização paga por usuário, por mês, sem imobilizar capital. Para uma prefeitura de médio porte, uma escola técnica ou uma unidade de saúde pública, essa diferença é decisiva. Não existe aprovação orçamentária plurianual, não existe processo de compra de equipamentos novos, não existe necessidade de equipe interna para manter o ambiente. A contratação é feita como serviço, na linha de despesa operacional, mediante licitação.
Segundo Jacobovicz, essa distinção explica por que o segmento de DaaS vem ganhando tração no Brasil. “Grandes bancos já têm infraestrutura e já têm equipe. Quem está entrando agora no mercado de virtualização são organizações que nunca tiveram condições de montar VDI próprio. Para elas, o modelo por assinatura é melhor alternativa possível,” afirma.
O hardware antigo como caso de uso central
A Arlequim Technologies, fundada por Jacobovicz, opera com um modelo baseado em vGPUs (unidades de processamento gráfico virtualizadas) da NVIDIA, com infraestrutura de servidores em São Paulo e Curitiba. A lógica central é a mesma aplicada ao mercado corporativo: o processamento acontece no servidor; o dispositivo do usuário funciona como terminal de acesso. Um computador de cinco anos com hardware modesto se torna capaz de rodar aplicações que seu processador local nunca suportaria.
No contexto corporativo e institucional, esse princípio tem alcance direto. Escolas técnicas com laboratórios de informática desatualizados conseguem rodar softwares de CAD, simulação ou edição sem trocar uma única máquina. Prefeituras com parque de PCs antigos atendem exigências de conformidade com a LGPD sem investimento em hardware. Clínicas e unidades de saúde mantêm prontuários eletrônicos em ambiente centralizado a partir de terminais que custam uma fração de um desktop físico novo.
O mercado virtual de desktops no Brasil foi avaliado em US$ 222,2 milhões em 2024 e deve chegar a US$ 1,11 bilhão até 2035, segundo projeção da Market Research Future. O segmento de DaaS em nuvem deve alcançar US$ 336 milhões sozinho até 2035.
O que o CAGR não captura
Um crescimento de 16,54% ao ano é expressivo, mas o número por si só não revela o perfil do comprador que está puxando essa curva. Não são as grandes corporações, essas já tinham acesso ao VDI há anos. São as organizações de médio porte, as instituições públicas e os órgãos de educação e saúde que chegaram tarde ao mercado de infraestrutura de TI, não por falta de demanda, mas por falta de modelo de acesso adequado.
A maturidade de conformidade com a LGPD no setor público brasileiro ainda está abaixo do mínimo exigido em auditorias realizadas entre 2023 e 2025. A pressão regulatória vai aumentar, não diminuir — a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) ganhou status de agência regulatória independente em 2025, o que sinaliza maior capacidade de fiscalização e sanção nos próximos anos. Esse ambiente de compliance mais exigente e a incapacidade de renovar hardware de forma acelerada formam a combinação que reflete no aumento da demanda por DaaS no país.
Para Jacobovicz, esse ritmo de crescimento anual de 16% é consequência direta desse contexto. “O crescimento desse mercado não é simplesmente tecnológico. É fiscal, regulatório e orçamentário ao mesmo tempo. A virtualização resolve três questões importantes nas empresas com uma única decisão de compra”, finaliza o executivo.
